Estrada Dona Francisca

Um Caminho de Conflitos

Razões

Ao abrir a Estrada da Serra, a meta era ligar o litoral do município de São Francisco do Sul e a colônia Dona Francisca com o planalto de Curitiba. Isto interessava não só à comunidade local, como também, ao governo Imperial, que, em 1858, custeava os trabalhos com subvenções mensais. A obra de vulto, que nascera como uma iniciativa particular, passou a ser um empreendimento imperial.

A Estrada

O traçado da Estrada da Serra foi definido pelo engenheiro e agrimensor Carl August Wunderwald, que se embrenhou pela mata atlântica em duas excursões realizadas anos antes. Caminhou pela região que compreendia o vale do rio Cubatão, Rio da Prata a Rio Seco e detectou os melhores locais para a abertura do novo caminho.

Elevado ao posto de diretor da Colônia em 1858 Léonce Aubé assumiu a administração dos trabalhos e deu início à construção de uma das mais valiosas obras da Joinville daqueles dias. Carlos Ficker, no livro "História de Joinville - Crônica da Colônia Dona Francisca" reproduz as instruções que deveriam ser observadas na construção da nova estrada: "1º - a estrada terá 30 palmos de largura, contados entre as arestas das valetas laterais; 2º - as valetas serão abertas de ambos os lados da estrada, sendo em planície e em morros somente do lado de cima destes e terão cinco palmos de largura e três ditos de profundidade".

No total, eram 17 itens, que descrevem minuciosamente como deveria ser a "Franciscastrasse".

Política

A Província do Paraná temia que o escoamento da produção pela Estrada Dona Francisca diminuísse a movimentação de riquezas em Paranaguá, Morretes e na Estrada Graciosa devido ao escoamento direto até São Francisco do Sul. Por isso, não apoiava o novo empreendimento e tentava, nos gabinetes imperiais, fazer com o que o ponto de chegada não fosse Rio Negro (como havia sido estabelecido), mas Curitiba.

Desentendimentos

Com a definição por Rio Negro, Paraná fez mais uma jogada, transferindo para a estrada - no meio da mata - um ponto de coleta fiscal. O problema é que o posto ficava em área catarinense e o governo da província de Santa Catarina não tardou a reagir. Enquanto cada lado procurava defender seus interesses, o governo imperial decidiu suspender os pagamentos das obras, alegando, erroneamente, que o ponto final ainda não estava definido. Na prática, tanto a comunidade do Paraná quanto a de Santa Catarina saíam perdendo.

Outro episódio envolvendo as duas províncias foi pelo domínio de terras entre Rio Negro e a Serra Geral. Enquanto a Sociedade Colonizadora enviava colonos para lotes demarcados naquela região, o Paraná vendia os mesmos lotes com títulos provisórios de propriedade a famílias interessadas. O conflito ficou conhecido como "questão de limites" e que deixou a região do planalto em "pé-de-guerra".

Prejuízo

Em 1869, durante todo o ano as obras na Estrada da Serra ficaram paradas por falta de verbas. No início da década seguinte , cerca de 30 quilômetros da Estrada estavam concluídos e o traçado iniciava no centro de Joinville, passava por Pirabeiraba e atingia a região do Alto da Serra. Daí por diante até Rio Negro, havia apenas uma picada, que em dias de chuva ficava intransitável. Ainda levaria outras décadas para que a "Franciscastrasse" fosse concluída.

Trabalho Imigrante

A construção da estrada Dona Francisca deu novo impulso à Colônia. Com as obras foi possível dar serviço e remuneração aos imigrantes. Centenas de colonos estavam estabelecidos na região e encontraram nos trabalhos de construção o único meio de terem dinheiro na mão. A atividade comercial, de indústria e a agricultura floresceriam somente depois com a abertura do novo caminho.

Desenvolvimento

Com o acesso, deu início o comércio de erva-mate e de madeira que descia a serra em busca da Colônia. Na volta por São Bento, os carroceiros passavam carregados, trazendo produtos para suas casas. Os carroções com toldo de lona, puxados por seis ou oito cavalos, eram chamados de "carroções de São Bento" ou "São Bentowagen" e ainda hoje estão presentes na memória dos moradores mais antigos.

O eixo da estrada

A Rua Dona Francisca começa no centro de Joinville e atravessa a cidade em direção à serra. Além do perímetro urbano, corta também o distrito industrial, o distrito de Pirabeiraba, a BR-101 e segue até o município de Rio Negro, passando por Campo Alegre, São Bento do Sul, Rio Negrinho e Mafra. A rua passou a ser chamada de Estrada Dona Francisca a partir da BR-101 e presenteia os viajantes e moradores com a exuberância da mata atlântica que cobre toda a região.

Viagem Inaugural

Em 1865 o primeiro grupo de viajantes vindos de Curitiba descia pela estrada e era recebido com festa na colônia Dona Francisca. No dia seguinte, um outro grupo chegava trazendo um carregamento de erva-mate e retornava levando couro curtido do curtume de Jacob Richlin, sinalizando o início do comércio entre as localidades e antecipando o ciclo que iria se tornar um dos mais importantes na história econômica da região, o da erva-mate.

Benefício

Na época, a colônia Dona Francisca contava com cerca de dois mil habitantes e, embora já despontassem estabelecimentos comerciais e prestadores de serviço da própria comunidade atendessem a população, a agricultura ainda era a principal atividade dos imigrantes europeus que continuavam chegando ao lugarejo.

 

   

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